A militância é chata?

- E aí, tá fazendo o que?
- Tô assistindo Todo Mundo Odeia o Chris. E você?
- Assistindo Chaves.
- Eu não lembro de ter personagem negro em Chaves. Tem? Me lembre aí. Tem muito tempo que não assisto.
- Não.
- Hum.
- Você gostava na época?
- Sim, especialmente por não ter consciência de raça e classe.


Esse diálogo entre mim e outra pessoa negra me fez refletir sobre como posso ser encarada como uma militante chata. Aquela que vê racismo, preterimento, sexismo, machismo, lgbtfobia e tantas outras doenças sociais em tudo, sabe? Não menti quando disse que gostava do seriado por ainda não ter consciência de raça e classe. Sempre fui uma criança que gostava de estudar e encarava o estudo como diversão. Mas também fui aquela criança que não tinha ensinamento sobre as questões da negritude em casa. Sentia o racismo, mas não sabia exatamente o que era e o porquê ocorria. Era atingida por flechas sem enxergar exatamente o atirador. Minha consciência racial só chegou na vida adulta. Não sei se isso foi bom ou ruim. Sei apenas que meu caminho foi esse. Enfim...
Após a afirmação de que não possuía essa consciência de raça e classe, senti a necessidade de entender a razão de em Chaves não haver personagens negros. Numa pesquisa rápida pela internet, descobri que somente em 2011 o termo afrodescendente foi aceito no país de origem, o México. Tomei conhecimento também que lá a maioria das pessoas se considera branca ou indígena e que ser negra no país pode ser fonte de muitos problemas. Talvez esta seja a explicação mais logica para a ausência de pessoas pretas no seriado: elas são encaradas como inexistentes. O que significa que a luta lá ainda é muito grande se comparada com o Brasil, por exemplo.
Diante deste corriqueiro acontecimento, pude constatar que, sendo chata ou não, a militância sempre me leva a conhecer mais sobre o mundo e as pessoas. Curiosamente a pessoa com quem estabeleci o diálogo acima não falou mais comigo. Aprendi também que militância tira indivíduos do seu caminho, sejam eles próprios ou versões indesejáveis deles. 
Portanto, sigo militando porque sigo existindo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Textos feministas para download

Meia idade

A disciplina supera a ausência de inspiração?