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Mostrando postagens de maio, 2020

Mulheres negras e o receio em si assumirem

Para nós, mulheres negras, a construção de uma autoestima sólida muitas vezes se completa já numa idade avançada, depois de muitas experiências de desconstrução. Reconhecer-se poderosa é um desafio que com frequência ganha status de surpresa. Como eu posso ser poderosa? Como eu posso ser potente? "Aonde que eu sou foda, você está louca!". A situação ainda se complexifica quando as oportunidades de estarem em posições de poder cruzam com estas mulheres e elas se sentem despreparadas, mesmo não sendo. É o que se denomina Síndrome da Impostora. Você nunca se considera suficientemente preparada e, quando é convocada a aproveitar alguma oportunidade, se sente uma fraude por isso. Por que é tão difícil se reconhecer competente? Pior, por que há tanto estranhamento em ser recomendada como alguém que as outras pessoas precisam ouvir, ver? Isso lembra muito a história da representatividade, né? Essa reflexão já estava em minha mente, mas se aprofundou quando em um dos debates virtu...

Sobre o perdão

Recebi um convite para assistir uma live que um amigo irá promover esta semana cuja temática é o perdão. Imediatamente lembrei do filme A Cabana (inclusive, recomendo!) e de como o perdão traz em si o sentido de libertação. Contudo não pude evitar a associação com minha vida pessoal, especialmente ao que tange minha pertença a um povo historicamente escravizado. Seria eu capaz de perdoar a escravidão e suas consequências? Se consultada alguma das minhas ancestrais que viveu na pele a dor e o sofrimento imputado por este sistema, a mesma seria capaz de perdoar o que foi feito a ela? O perdão neste momento se mostrou um tema muito maior do que visto por mim até o momento. Me surgiu a seguinte reflexão que escrevi para meu amigo: Às vezes as ações que nos ferem mudam os rumos das nossas histórias sem o nosso consentimento, muito menos a nossa consulta. Nos tiram a oportunidade de escolha e estraçalha o nosso coração. Acabam com estruturas construídas com tanto sacrifício que fica di...

Novo réveillon

Imagino um novo réveillon. Uma nova data comemorativa. Pessoas se abraçando, casais se reencontrando, sorrisos espalhados distribuídos generosamente. Raça, classe, gênero e várias outras categorias sendo deixadas de lado em prol da harmonia humana em comemorar a vitória da ciência sobre um vírus. Apenas imagino. Gostaria que realmente fosse assim, embora sinta que essa projeção ficará apenas no mundo das idéias. Na realidade o que acredito ser mais provável de ocorrer é que a humanidade continuará adoecendo a Terra. Após a alegria da retomada da liberdade, os indivíduos continuarão em suas bolhas, lutando as suas lutas pessoais individuais. Essa pandemia só trouxe à luz aquilo que já existia. A vida continuará seguindo seus interesses. É como o jargão que diz: não haverá ano novo, nem vida nova com práticas antigas. Pintar a casa não é mudar a sua estrutura, é maquiar a sua essência.

Subitamente em #pandemia

Subitamente de nós foi tirado o conforto de não se sentir ameaçadx por latas de refrigerante, caixas de sabão em pó, sacos de macarrão ou verduras na seção de hortifruti. De repente nos foi impetrada a condição de tapar boca e nariz para continuar respirando. Do dia para noite fomos obrigadxs a manter distância do amor para continuar amando, do abraço para continuar abrançando, do beijo para continuar beijando. Não mais que de repente, nos arrancaram a segurança do pensamento de que "ah isso não vai chegar ao Brasil". Tentaram nos cegar com discursos de "é só uma gripezinha", "brasileiro precisa ser estudado, mergulha no esgoto e não acontece nada", "o pior já passou". A alguns conseguiram. Amazonas, Maranhã, Pará, Ceará e aos poucos todos os demais estados se vem correndo contra o tempo para driblar a tal curva. Eu e tantxs brasileirxs, tidos como povo alegre a acolhedor, acostumados as curvas do sorriso seguimos lutamos para não ficarmos a...

Em extinção

Eu sou um animal em extinção Só há um exemplar de mim na minha espécie  Como posso perpetuar-me evitando a inexistência? É através da arte Daquilo que deixo de meu, único e intransferível  Atemporal Que continuarei existndo  Mesmo depois do beijo gélido e pálido  Eu mulher negra Movedora de estruturas sociais  Tenho toque único e humano só meu Ninguém fará algo que só eu posso fazer Mesmo que este algo possa ser feito por outra como eu Não terá meu toque, minha voz, minha essência e existência  As palavras ditas pela minha boca Só podem ser desenhadas pelos meus lábios  Ainda que outra como eu diga Não serei eu a dizer Pode não importar para quem escuta de onde vem a voz que invade seus ouvidos Mas importa a mim que digo e não apenas ouço  Me torno protagonista Me vejo sujeita Gozo da minha voz ecoada Meu DNA impresso em ondas sonoras minhas Que reiteram que estou em extinção  Cuidem de m...

Escrever sobre mim para que outro não o faça

Lélia, bell, Grada, Angela, Audre dizem que é preciso escrever. É preciso falar em primeira pessoa para que outro não faça isso por mim. Contudo aprender a escrever sobre mim não foi algo que aprendi na cadeira da escola, muito menos na da universidade. Nesses locais aprendi que nunca será suficiente. Ninguém pegou na minha mão e disse "Vamos Sazana, escreva. É assim que se faz". Bem ou mal, ouvi pontualmente em vários momentos da minha vida que escrevo bem. Meus diários guardadores de segredo sempre sabiam me contar bem aquilo que havia registrado anos antes. Mas sempre ansiei por uma figura que estivesse ali, na investida frequente, me fazendo ouvir o quanto a escrita também poderia ser para mim. Na 5ª série a professora de Língua Portuguesa elogiou minha escrita. Na graduação, minha professora disse que o artigo estava muito bom e precisava apenas acrescentar outros pontos. Me convidou a publicar com ela. Na apresentação do TCC da especialização a membra da banca exam...

O que faz uma pessoa negra inteligente?

Estou lendo bastante. Estou cumprindo a meta. Meus armários estão lotados de livros Um deles contém prateleiras de autoras negras Livros comprados no impulso de saber mais sobre mim Leituras feitas para ensinar quem a mim passar O que me faz uma pessoa negra inteligente? O conhecimento sobre o cânone acadêmico? A quantidade de papéis homologados informando os títulos alcançados e ocultando as noites em claro, o choro cansado e o desencontro de sentido na trajetória? O que faz uma pessoa preta inteligente? É a quantidade de vezes que ela driblou o racismo? Os dias (sobre) vividos frente a violência do Estado? Ou os milagres feitos com o salário de miséria que alimenta muitas bocas, menos a daquela que saiu cedo para trabalhar? O que faz uma pessoa negra inteligente? Será pra sempre o ato de se manter dentro dos limites brancos aceitáveis? A capacidade de não incomodar a estrutura que segura essa sociedade de merda? Estou lendo bastante. Ainda não encontrei a resposta que...

Descansar é um ato possível?

Pergunto porque entendo que desistir não seja uma opção. Desistir do combate por igualdade racial e de direitos, ao menos no Brasil, não é algo possível para a pessoa preta. A sua própria existência, o seu despertar diário, já configura uma investida contra as forças violentas que buscam a extinção da pele negra. Questiono também porque hoje senti a vontade de estar o dia inteiro na cama e, a cada minuto que se passava enquanto realizava o meu desejo, inúmeros foram os pensamentos acusadores de estar me aproveitando deste privilégio enquanto uma avalanche de pessoas negras não poderiam fazer o mesmo. Memórias ancestrais, objetivos pessoais futuros, metas para o alcance de uma sociedade mais justa estava assombrando o meu pensamento enquanto tentava descansar. Militante descansa ou só milita? O descanso para a pessoa militante é uma utopia? Se for uma possibilidade real, quando e em que sentido essa trégua chegará? Mulheres negras que militam em prol de uma sociedade equânime não de...

A criatividade do racismo e sua capacidade de cegar suas vítimas

A luta é grande e ela requer de nós a ausência de sentido de surpresa. Isso porque o racismo é ardiloso ao ponto de cegar as suas vítimas de modo que elas pensem que ele não as toca. Cabe a nós não nos surpreendermos, mas nos prepararmos para a sua imensa criatividade. Iniciei este texto pelo fim. Este trecho foi o conselho que dei a uma estudante depois que ela me mandou um áudio relatando um episódio onde um amigo dela, também negro, mas que se reconhecia como branco, falava sobre como a militância não tem senso de humor por ver racismo em tudo. Essa mesma estudante, há algum tempo atrás, chegou esbaforida ao final da aula para desabafar falando que uma colega de sala, também estudante de uma das minhas turmas de capacitação profissional, havia dito a ela que era branca. Sendo que a mesma é lida como negra segundo o racismo de marca presente no Brasil (aquele que leva em consideração a fenotipicidade ao invés da ancestralidade da pessoa). Feito este preambulo, há dois pontos a s...