Postagens

Mostrando postagens de junho, 2020

"Mulher, se tiver publicidade, corro léguas": militância e os caminhos da doença e da morte

Quando você lê este título, o que vem à sua mente? Talvez você me diga que essa frase evoca a urgência da autopromoção ou, justamente o oposto, a emergência da invisibilidade. Recebi esta frase como resposta de uma amiga que me falava como nossa geração será responsável por encontrar o caminho do meio entre aliar ancestralidade e atualidade de maneira mais evidente e que pessoas como eu (acho que falou isso por eu compartilhar meus pensamentos abertamente, não sei, não perguntei) estarão nesta frente. Prontamente, falei a ela que ela tinha essa responsabilidade também. Em troca recebi o "Mulher, se tiver publicidade, corro léguas". A conhecendo, sabia que se tratava da necessidade dela de não ficar na frente dos holofotes. Me questionei sobre a dificuldade de valorizar os trabalhos de bastidores, sobre como tendemos a querer impulsionar o protagonismo das mulheres negras associando esse protagonismo ao lugar em frente às luzes sem respeitar a individualidade e escolha de qu...

O luto em tempos de pandemia

Tempo, não temos. Nunca temos tempo suficiente para estar com quem nos é caro. Essa pandemia vem nos ensinar que tempo continua sendo artigo de luxo: por uns almejado, por outros desperdiçado. Durante esses 82 dias de isolamento(até a data de publicação deste texto), duas pessoas do meu convívio faleceram. A despedida, em número reduzido de pessoas por conta do risco de contaminação, ganha uma atmosfera ainda mais triste e solitária.  A dor pelo falecimento se mistura a outras como a pelo aumento no número de vítimas fatais por COVID-19, a angústia pela ameaça em contrair o vírus, o aumento na taxa de desemprego, o desleixo do governo federal no tratamento dado á grave crise de saúde coletiva, a elevação na taxa de homicídios praticados pela polícia, o sofrimento na manutenção de alguma esperança na transformação social, a impossibilidade do descanso. Esses foram apenas alguns exemplos. Não há tempo suficiente para viver os sofrimentos e expulsar as dores do peito (vão se acumuland...

Mulheres negras: entre a objetificação e a sensualidade

Enquanto via fotos minhas de um ensaio sensual antigo, me perguntava sobre como as mulheres negras militantes tratavam a sua sensualidade. Me questionei também se as raras fotos sensuais que já apreciei delas tinham alguma relação com a preocupação em não serem tratadas como objetos ou terem seus corpos hipersexualizados. Talvez por considerarem esse risco, poucas sejam as fotos postadas. Essa já foi uma questão pessoal minha em um dado momento da vida, mesmo considerando ser importante deixar a beleza e a sensualidade fluírem, já que são características ao mesmo tempo naturais e, evidentemente, subjetivas. Um outro ponto a ser colocado é o "medo do ridículo", o receio da crítica. Não é segredo que historicamente as mulheres negras, assim como os homens negros, foram conduzidos (eufemismo, né?) a perceberem-se como feios por não atenderem a um padrão branco de beleza. Sendo assim, para aceitar seu corpo negro como belo e sensual, muitas vezes, requer da mulher negra e do hom...