"Mulher, se tiver publicidade, corro léguas": militância e os caminhos da doença e da morte
Quando você lê este título, o que vem à sua mente? Talvez você me diga que essa frase evoca a urgência da autopromoção ou, justamente o oposto, a emergência da invisibilidade.
Recebi esta frase como resposta de uma amiga que me falava como nossa geração será responsável por encontrar o caminho do meio entre aliar ancestralidade e atualidade de maneira mais evidente e que pessoas como eu (acho que falou isso por eu compartilhar meus pensamentos abertamente, não sei, não perguntei) estarão nesta frente. Prontamente, falei a ela que ela tinha essa responsabilidade também. Em troca recebi o "Mulher, se tiver publicidade, corro léguas". A conhecendo, sabia que se tratava da necessidade dela de não ficar na frente dos holofotes.
Me questionei sobre a dificuldade de valorizar os trabalhos de bastidores, sobre como tendemos a querer impulsionar o protagonismo das mulheres negras associando esse protagonismo ao lugar em frente às luzes sem respeitar a individualidade e escolha de quem se vê confortável atrás das cortinas, sem que isso signifique comodismo. Contudo, esta era apenas uma analogia simplória, diria. Após avançar no diálogo, minha amiga me falou exatamente o que significava este correr. Dizia respeito à contrariar os principais caminhos apresentados às/aos militantes: a doença ou a morte. Como assim? Não é segredo que a entrega sem precedentes a uma causa pode causar danos à saúde de quem milita a favor dela. Audre Lorde está aí para nos provar isto. Quando não é o caminho da doença o "escolhido", a pessoa militante muitas vezes é vista como uma ameaça (leia-se alvo) frente aos opressores. Marielle Franco é o nosso maior ícone a esse respeito na atualidade.
O que minha amiga quis dizer sobre correr léguas em caso de publicidade corresponde exatamente a manter-se viva e saudável. Isto porque a maior pretensão dela é cuidar da mãe na velhice. Esse objetivo toca em outro ponto também importante: a ausência ou deficiência do convívio familiar. Quanto mais a/o militante se torna um nome de referência dentro do movimento, mais requisitadx se tornará, maior será a sua ânsia por participação em eventos e, consequentemente, menor será a sua presença em seu seio familiar. Talvez esta ausência também possa ser encarada como uma doença ou morte. Doença quando, por não estar presente em sua família, esta acaba por adoecer pela falta das contribuições que poderiam ser feitas e das evoluções que poderiam ter ocorrido. Morte por, em caso mais extremo e intenso, esta/e militante se sentir não pertencente (um peixe fora d'água) ao núcleo familiar do qual surgiu.
Acredito que possivelmente surja o questionamento: há legitimidade na palavra daquele indivíduo que milita mas escolhe o caminho sem holofotes? Penso que é possível contra argumentar perguntando: seria equivocado optar pela vida? Claro, vida e morte podem ser encarados de maneira variável. Você pode, inclusive, pensar que há caminho de vida para a pessoa que milita em frente aos holofotes. Afinal "nada é, tudo está" como aponta Fran Caye. Neste sentido, penso ser o questionamento, a problematização, do ser indivíduo que milita um importante passo para o enfrentamento do que se pensa por vida e morte na estrutura da militância.
Recebi esta frase como resposta de uma amiga que me falava como nossa geração será responsável por encontrar o caminho do meio entre aliar ancestralidade e atualidade de maneira mais evidente e que pessoas como eu (acho que falou isso por eu compartilhar meus pensamentos abertamente, não sei, não perguntei) estarão nesta frente. Prontamente, falei a ela que ela tinha essa responsabilidade também. Em troca recebi o "Mulher, se tiver publicidade, corro léguas". A conhecendo, sabia que se tratava da necessidade dela de não ficar na frente dos holofotes.
Me questionei sobre a dificuldade de valorizar os trabalhos de bastidores, sobre como tendemos a querer impulsionar o protagonismo das mulheres negras associando esse protagonismo ao lugar em frente às luzes sem respeitar a individualidade e escolha de quem se vê confortável atrás das cortinas, sem que isso signifique comodismo. Contudo, esta era apenas uma analogia simplória, diria. Após avançar no diálogo, minha amiga me falou exatamente o que significava este correr. Dizia respeito à contrariar os principais caminhos apresentados às/aos militantes: a doença ou a morte. Como assim? Não é segredo que a entrega sem precedentes a uma causa pode causar danos à saúde de quem milita a favor dela. Audre Lorde está aí para nos provar isto. Quando não é o caminho da doença o "escolhido", a pessoa militante muitas vezes é vista como uma ameaça (leia-se alvo) frente aos opressores. Marielle Franco é o nosso maior ícone a esse respeito na atualidade.
O que minha amiga quis dizer sobre correr léguas em caso de publicidade corresponde exatamente a manter-se viva e saudável. Isto porque a maior pretensão dela é cuidar da mãe na velhice. Esse objetivo toca em outro ponto também importante: a ausência ou deficiência do convívio familiar. Quanto mais a/o militante se torna um nome de referência dentro do movimento, mais requisitadx se tornará, maior será a sua ânsia por participação em eventos e, consequentemente, menor será a sua presença em seu seio familiar. Talvez esta ausência também possa ser encarada como uma doença ou morte. Doença quando, por não estar presente em sua família, esta acaba por adoecer pela falta das contribuições que poderiam ser feitas e das evoluções que poderiam ter ocorrido. Morte por, em caso mais extremo e intenso, esta/e militante se sentir não pertencente (um peixe fora d'água) ao núcleo familiar do qual surgiu.
Acredito que possivelmente surja o questionamento: há legitimidade na palavra daquele indivíduo que milita mas escolhe o caminho sem holofotes? Penso que é possível contra argumentar perguntando: seria equivocado optar pela vida? Claro, vida e morte podem ser encarados de maneira variável. Você pode, inclusive, pensar que há caminho de vida para a pessoa que milita em frente aos holofotes. Afinal "nada é, tudo está" como aponta Fran Caye. Neste sentido, penso ser o questionamento, a problematização, do ser indivíduo que milita um importante passo para o enfrentamento do que se pensa por vida e morte na estrutura da militância.
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