O luto em tempos de pandemia
Tempo, não temos. Nunca temos tempo suficiente para estar com quem nos é caro. Essa pandemia vem nos ensinar que tempo continua sendo artigo de luxo: por uns almejado, por outros desperdiçado.
Durante esses 82 dias de isolamento(até a data de publicação deste texto), duas pessoas do meu convívio faleceram. A despedida, em número reduzido de pessoas por conta do risco de contaminação, ganha uma atmosfera ainda mais triste e solitária.
A dor pelo falecimento se mistura a outras como a pelo aumento no número de vítimas fatais por COVID-19, a angústia pela ameaça em contrair o vírus, o aumento na taxa de desemprego, o desleixo do governo federal no tratamento dado á grave crise de saúde coletiva, a elevação na taxa de homicídios praticados pela polícia, o sofrimento na manutenção de alguma esperança na transformação social, a impossibilidade do descanso. Esses foram apenas alguns exemplos. Não há tempo suficiente para viver os sofrimentos e expulsar as dores do peito (vão se acumulando). Não existem segundos bastantes para um respiro profundo acompanhado do questionamento "E agora?". Quem cai no luto não tem tempo para entender a amplitude do que isso significa. Pelo contrário, se vê quase que na mesma velocidade impulsionado a levantar. Funciona como se todas as leis de Newton fossem comprovadas e quebradas ao mesmo tempo. Aquele que está no luto, não está estando. Patina no vazio. Anda, cai, levanta e é obrigado a andar como numa esteira ergométrica que não sai do lugar.
São tantas as preocupações, tantas as urgências que parece não haver o que ser feito para dar conta de todas. Isso porque todas obrigam uma resolução imediata. Chega-se à conclusão de que se tudo é urgente nada o é ao mesmo tempo. Exceto manter a vida.
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