A criatividade do racismo e sua capacidade de cegar suas vítimas


A luta é grande e ela requer de nós a ausência de sentido de surpresa. Isso porque o racismo é ardiloso ao ponto de cegar as suas vítimas de modo que elas pensem que ele não as toca. Cabe a nós não nos surpreendermos, mas nos prepararmos para a sua imensa criatividade.

Iniciei este texto pelo fim. Este trecho foi o conselho que dei a uma estudante depois que ela me mandou um áudio relatando um episódio onde um amigo dela, também negro, mas que se reconhecia como branco, falava sobre como a militância não tem senso de humor por ver racismo em tudo. Essa mesma estudante, há algum tempo atrás, chegou esbaforida ao final da aula para desabafar falando que uma colega de sala, também estudante de uma das minhas turmas de capacitação profissional, havia dito a ela que era branca. Sendo que a mesma é lida como negra segundo o racismo de marca presente no Brasil (aquele que leva em consideração a fenotipicidade ao invés da ancestralidade da pessoa).

Feito este preambulo, há dois pontos a serem tratados que intitulam este texto. O primeiro fala da criatividade do racismo. Desconheço pessoas que tenham sido vítimas conscientes do racismo (por favor, não confunda consciência com permissividade) que não tenham passado por alguma situação em que não conseguiram esboçar reação ao se perceberem enredadas em sua artimanha. São diversas e constantemente renovadas as formas com que o racismo atinge os corpos negros. Normalmente ocorridas nos momentos mais inesperados, mais improváveis, mais despretenciosos por parte de quem apenas está vivendo a sua vida livremente, ou assim se considera.

Em muitas situações em que o racismo se apresenta a primeira reação da vítima é da incredulidade (repito, quando se tem consciência) de que de fato houve a violência. Em seguida, caso não haja qualquer reação no sentido de combater a ação racista, a vítima se sente culpada por não ter reagido, elabora inúmeras possibilidade de resposta e volta a se culpar num espiral sem fim de arrependimento pela sua falta de reação, sendo que a ela não deve ser atribuída culpa alguma.

O segundo ponto, a capacidade que o racismo tem de cegar as suas vítimas, diz respeito muito mais ao apagamento da identidade da pessoa preta ao ponto dela não se reconhecer como tal e, quando apontada como negra, se sentir ofendida. Franz Fanon aborda essa questão. E os exemplos trazidos pela minha estudante ilustram bem isso. Ao longo da vida da sujeita e do sujeito, ouso dizer que desde que podemos denominá-la/lo assim, há esforços diários, 24 horas por dia, em prol do apagamento identitário desta pessoa negra.

Não poucas são as casas onde mesmo tendo 100% de pessoas pretas compondo o seio familiar, nunca se tratou do que isto significa, embora todos saibam. Por não haver essa tratativa sobre o que é ser negra/o, ao chegar no ambiente escolar, muitas vezes a criança é pega de surpresa pelos primeiros atos racistas contra a sua existência. Aí, o choro vem junto com a vergonha e, não raro, com o sentimento de culpa (talvez a primeira experiência, em muitos casos). Os dias se seguem e vai se forjando uma forma identitária imaginária que auxilie aquela criança a sobreviver no espaço escolar. Esta estratégia inclui, evidentemente, o não reconhecimento de si enquanto pessoa negra. Por isso, não é de se estranhar que negras e negros se considerem brancas/os ao ponto de se sentirem ofendidas/os ao serem apontadas/os como algo diferente disso. O máximo que passa-se a aceitar é a ideia de morena /o.

O mesmo vai se repetindo nas demais esferas: laboral, afetiva, sexual, etc. Contudo, a perversidade do racismo também consiste no desnudamento daquela farsa. "A graça" encontrada por ele encontra-se em fazer perceber, o qual tardiamente for, que aquela pessoa preta foi lambusada na lama da ilusão de se sentir branca durante toda a vida e que, agora, sem esperar, recebe um jato de água limpa que a obriga a se reconhecer negra e se sentir sem identidade. Aí o choro vem junto com a vergonha e o questionamento de "como não percebi isto antes?". A afirmação consolida: "vivi uma farsa". Morre-se.

Todo este tardar identitário não é plenamente ruim. Sendo bem otimista, uma vez tendo o reconhecimento de si enquanto pessoa negra, renasce-se com o cair das escamas oculares imersas nas lágrimas da realidade que sempre esteve ali. Ergue-se uma força no combate ao racismo que nunca se contenta sozinha e se alimenta da eliminação de outras cegueiras raciais. Surge então a impetuosa necessidade de fazer com outras e outros abandonem o status de cegas/os para tornarem-se soldadas/soldados de uma luta que sempre foi maior do que elas/eles e existe desde que o Brasil é Brasil.

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