Heroínas e heróis das crianças pretas








Quão cruel é pedir ás crianças  que representem suas heroínas e seus heróis sem lhes dar a oportunidade de conhecer aqueles que pertencem à sua linhagem.
Recordo com frequência um frase dita por um estudante durante a aula de Arte, Cultura e Relações Étnico Raciais que ministrei durante dois anos em um projeto social em Salvador, Bahia. Em um dos nossos debates sobre historicidade e ancestralidade negra, foi recordado o quanto somos estimulados durante a educação infantil a desenharmos nossa árvore genealógica afim de entendermos um pouco do nosso passado, daqueles que vieram antes de nós. Eis que escuto: "Professora, branco tem árvore genealógica, preto só tem raiz". Neste instante o silêncio se fez presente devido à potência daquela frase.
Ela sintetizava a razão de nós, negras e negros, não termos conhecimento de onde iniciamos. Explico. É simplório pensar que começamos a existir apenas a partir dos nossos pais ou dos nossos avós. Existiram outras tantas pessoas que vieram antes até mesmo deles, que fazem parte da nossa linhagem, que são nossos parentes (utilizando a linguagem indígena) e que dos quais não temos o menor conhecimento.  Grada Kilomba em seu livro Memórias da Plantação, nos alerta sobre a crueldade do apagamento da nossa história e nos incita a questionar porque falamos de heróis e heroínas que não correspondem a nossa realidade para os nossos mais novos, as crianças.
Yaa Gyasi, em sua obra O caminho de Casa, nos futuca enquanto desenha diante de nossos olhos uma árvore genealógica preta, originalmente africana. De brinde ainda, sem dizer uma palavra, coloca na nossa mente a seguinte questão: "Quem veio antes de mim que me proporcionou estar aqui?"
Assim, falar de heroínas e heróis, especialmente para as crianças pretas, deveria corresponder a contar a história delas mesmas através da existência anterior daqueles que a compuseram ancestralmente. Deixo aqui um questionamento: Por onde começarmos?

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