Autocuidado para mulheres negras

Praticar o autocuidado em nós, mulheres negras, é assombrar o sistema.
Ao despertar, nós já esfregamos uma vitória na cara da sociedade racista. Ser mulher negra viva é uma afronta. Não há outra palavra melhor, agora, para eu definir o que esse movimento de permanecer viva significa. Isto porque tudo ao redor da mulher negra é feito para que ela sucumba. Seu trabalho, sua convivência familiar, seus relacionamentos... Por isso, sua relação consigo é tão importante dentro do processo de (sobre) vivência. Se cuidar, se proteger, é mais do que a manutenção do corpo para o serviço. É a expressão genuína da altivez contra uma sociedade opressora e assassina. Ao cuidar das suas múltiplas saúdes (física, emocional, espiritual, financeira, familiar, ancestral), a mulher negra grita sua persistência na crença em si como força vital. Mulher negra é axé. Sua potência não só move as estruturas, ela cria. Sua potência é feitiçaria. Por favor, não entenda pejorativamente. A mulher negra é capaz de fazer nascer o que ainda não existe visivelmente. É capaz de trazer à luz o que há em outra dimensão, em outros planos. Entender e dominar este poder passa pelo autocuidado, pelo ato de si priorizar, de destinar a si mesma aquilo que de melhor vem destinando a outrxs. Fácil? Não é! Como nada que se refere à vida de mulheres negras. É urgente? Com toda certeza.
Essa urgência não é percebida por conta da maneira como mulheres negras foram obrigadas a conduzir as suas vidas. Primeiro com base na sobrevivência quase que milagrosa (feita com as próprias mãos). Segundo baseada no cuidado a pessoas que não são elas mesmas. O fato de olhar para fora, muitas vezes impede que a mulher negra perceba toda a sua riqueza interior. Viver sob a égide de apagar incêndios cotidianos faz com que as mulheres negras não exercitem o olhar contemplativo sobre si mesmas. Aqui o autocuidado aparece aliado profundamente com a capacidade de dizer "não" e justificar com o "porque não quero", "porque não acho importante", "porque não vou fazer" ou ainda com o "porque não!". Logo, entender o que se quer, o que se gosta e o que é relevante para si também é passo fundamental. Mas como alguém que não é ensinada a colocar seus desejos como prioridade vai fazer este movimento? É nesse momento que dois pontos aparecem como muito importantes: referência e rede. Ter pessoas de referência em quem possa se inspirar e construir uma rede de apoio com outras mulheres negras.
Olhar e escutar, durante o processo de autoconhecimento e autocuidado são ações fundamentais para permanecer forte no propósito. Se a mulher negra consegue ver outra como ela alcançando aquilo que ela mesma almeja, se manter firme em prol dessa evolução pessoal consciente se torna menos pesado. Ao passo que a rede de apoio a auxilia na sua necessidade de compartilhamento das suas sensações, sentimentos e resultados expressos na caminhada. A rede de mulheres negras funciona como um lugar seguro (parafraseando Patricia Hill Collins), é o lugar onde se pode pedir ajuda. A rede amplia a noção de que há outras como ela. Entender que a solidão pode ser superada, anima a caminhada.
O início é urgente, porque o sistema não dorme.

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