'Essa terra não será sempre estrangeira": Audre Lorde e a urgência do autoconhecimento.
Este é o primeiro verso do poema Os ventos da Orixá, escrito por Audre Lorde. Ao lê-lo tive a necessidade de parar e degustá-lo. Neste processo de "saboreamento" ganhei de brinde indagações. Quantas vezes me senti estrangeira em mim mesma? Ainda me sinto como estrangeira dentro da terra que sou. E isso significa que não conheço todas as minhas potencialidades, não conheço por inteiro tudo o que sou capaz de fazer por mim e por quem estiver ao meu redor.
"Essa terra não será sempre estrangeira" traz o alento da esperança de que um dia saberei a integridade do meu eu. Não sei se isso é verdadeiro, mas é no que quero acreditar. Para além disso, se eu sinto essa incompletude do saber sobre mim, é possível que outras mulheres negras também passem por isso. Quando penso nessa possibilidade, me questiono sobre qual é o lugar comum do nosso desencontro que, possivelmente não foi provocado por nós, mas pelas estruturas que nos adestram ao nosso total desconhecimento das nossas potencialidades e, consequentemente, de nós mesmas.
O autoconhecimento é a arma mais poderosa que uma mulher negra pode ter. Sabendo quem nós somos temos a escolha de usar isso a nosso favor. Sem esse conhecimento, a possibilidade de ser conduzida como gado aumentam e, logicamente, as chances de entorpecimento por migalhas que nos fazem acreditar serem suficientes para a nossa sobrevivência (não existência) só multiplicam.
Audre Lorde ainda me transporta para outros mares de questionamentos quando diz "Tiresias levou 500 anos para se tornar em mulher". Quanto tempo levarei para tornar-me eu mesma? E o que seria eu mesma? Essas questões filosóficas sempre existiram em minha mente pequena e gigante. A medida em que mergulho na busca do conhecimento sobre minha mulheridade afrodiaspórica mais elas gritam em minha caixa craniana. Não há desejo em pará-las, há o anseio em respondê-las.
A temporalidade expressa nos 500 anos levados por Tiresias me diz: Não há porquê ter pressa. Não consigo me conformar com esse conselho. Urge o autoconhecimento tanto quanto é emergencial saber o que preciso fazer, ler, intelectualizar, expor para o mundo o que é essa terra fértil exposta em nome e sobrenome, RG e CPF, endereço e profissão que sou eu. Assim eu também espero que as outras mulheres negras que acredito vivenciarem as mesmas indagações sintam o que eu sinto.
Eu, como Audre Lorde, também afirmo que "vou me tornar eu mesma...um encantamento".
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