Fingir ignorância por sobrevivência
Martin Luther King Jr. escreveu* que, possivelmente, as pessoas brancas do Sul jamais saibam "até que ponto os negros defenderam a si mesmo e protegeram seus empregos - e, em muitos casos, suas vidas - aperfeiçoando um ar de ignorância e concordância" (p.36). Fingir, performar, ignorância ainda é uma estratégia de sobrevivência contra as artimanhas do racismo não só nos Estados Unidos, mas também no Brasil.
Não raro é encontrar negros e negras que se apresentam alheios às questões raciais. Isso não é, necessariamente, uma expressão de desinteresse mas uma estratégia de sobrevivência sobretudo mental. Não se envolver, não debater e, em alguns casos, negar a existência do racismo garante a falsa sensação de manutenção da sanidade mental e da continuidade de uma vida sem turbulências.
Tenho uma turma formada por jovens negras e negros, em sua maioria. Em um dado momento, solicitei que relatassem um episódio de racismo ocorrido com eles ou com outra pessoa. Um dos jovens negros disse que jamais sofrera racismo. Questionei se ele realmente estava certo disso. Ele disse que sim. No meu interior acendeu o alerta sobre o "desconhecimento" de sua negritude seguido do alerta da estratégia de negação da mesma em favor de sua sobrevivência mental. Isto porque acredito veementemente que se uma pessoa negra tem sua negritude expressa todos os dias diante de um espelho ou por meio de expressões veladas ou escancaradas de discriminação racial e, mesmo assim, ela ainda insiste em negar essa negritude, deve ser por uma questão de sobrevivência. Não vejo outra saída.
King, com sua afirmação, me remete a pensar que nem mesmos nós negras e negros temos, em certos momentos da vida, essa trama expressa evidentemente diante dos nossos olhos. A trama de que negamos nossa negritude para sobreviver ou, ainda, para viver a farsa, no caso brasileiro, da democracia racial. Diante dessa elocubração, percebo as/os jovens como um elo fragilizado onde a falácia da inexistência do racismo pode criar raízes profundas.
* Livro: Por que não podemos esperar.
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