Do alto
Do alto do meu apartamento, sob o calor de verão e a brisa rara escapante do mormaço, observo uma mulher negra varrer os arredores do barraco que parece ser seu lar. Ela, vestida com as cores de Oba, numa terça-feira dedicada a Yemanja tenta preservar sua moradia à beira de um longo e sujo esgoto que, muito provavelmente, foi um rio um dia.
Me pergunto quais semelhanças nos tocam para a além da pele, suprimida a identidade de gênero. Questiono quais oportunidades não lhe foram apresentadas, quais foram negada e quais abraçou. Evidentemente, negras não são todas iguais, assim como ninguém é igual a ninguém. Comparar vidas é ingenuidade, tolice talvez, já q trajetórias são individuais? Mas tola que sou questiono qual seria o pensamento dela estando no nono andar caso eu estivesse empurrando meu lixo para esse esgoto a céu aberto.
Do lado de cá um casal branco caminha. Absorto ao que ocorre atrás do muro e das cercas elétricas que dividem um pedaço de terra e o nomeia como condomínio enquanto o que está do lado de lá é invasão. Quem de fato são os invasores?
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