A exigência do amor perfeito na ausência do próprio
Clichê daqueles que a gente lê todos os dias na internet e que, mesmo assim, não põe em prática. Por que tendemos a cobrar do outro* aquilo que nem mesmo sabemos que queremos? Qual a razão pela qual buscamos um amor perfeito, tendo plena consciência de que ele não existe? Seria tudo culpa dos contos de fadas ou parte desta porcentagem pode ser atribuída à ausência de reflexão sobre a questão?
Particularmente, acredito que tentar racionalizar alguns sentimentos pode auxiliar na diminuição ou, quem sabe até, extinção de certo mal estar. Refletir sobre o porquê de ficar chateada por algo que o parceiro fez, mas que você também realiza pode te colocar num lugar de enfrentamento dos próprios demônios ou, simplesmente, te obrigar a olhar para si. Evidentemente que é preciso coerência. Vejamos.
Tomemos como exemplo uma situação onde você foi convidada para uma festa na casa de uma amiga e não gostaria de ir acompanhada, embora seja alguém com um relacionamento afetivo estável e monogâmico. Sua atitude pode ser a de conversar abertamente com seu parceiro expressando seu desejo de ir sozinha e esperar a reação dele para, daí, resolver o que fazer. Ou pode mentir/omitir e ir sem que ele saiba. Quando da vez dele, de ir para algum lugar sem você, e tomando a mesma atitude que você tomou anteriormente, ao invés de ficar bem o que ocorre é a chateação. Essa é a questão.
Neste exemplo o que fica demonstrado é que muitas vezes o que se quer é devoção, dedicação total do outro para com a parceira, enquanto o oposto não ocorre. O mais perigoso é que muita gente acha que isso é empoderamento. "Sou dona de mim, faço o que quero e você também tem que fazer o que eu quero", esse tipo de pensamento tenta retirar a liberdade das pessoas na relação. Não se quer parceria, se quer devoção, ou até endeusamento. A ideia do amor perfeito, muitas vezes passa pelo equivoco de que eu devo estar no centro e o outro deve fazer as minhas vontades acima de tudo. Numa tentativa de sanar aquilo que eu, muitas vezes inconscientemente, nem sei que tenho como necessidade.
Enxergar-se, perceber-se e entender-se são ações individuais que precisam estar no topo da relação consigo para que, assim, viva afetivamente e em parceria. Se eu não sei quais são as minhas necessidades, especialmente aquelas que só dependem de mim para serem sanadas, acabo delegando isso ao meu parceiro e ficando chateada com a ausência de saciamento daquilo que desconheço estar sedenta ou faminta.
O que ocorre é que estamos muito ocupadas para nos culpar pelas nossas ausências para conosco e, muitas vezes projetamos isso em quem está mais próximo de nós. Ora, quando é que chegará a nossa vez de nos responsabilizarmos quanto às nossas carências se sempre a culpa recai sobre o outro? Não quero "passar pano" para a ausência de responsabilidade afetiva que muitos parceiros tem sobre suas "amadas". É necessário ser inequívoca. Como diz Nina Simone, precisamos nos levantar da mesa quando o amor não está mais sendo servido. No entanto entre não ser servido e ser ofertado aquilo que é possível há uma grande diferença. Cabe aceitar ou não, assim como é preciso ser coerente em assumir qual o papel exercido nesse jantar.
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