É preciso tecer nossa próprias narrativas

Quando se entra na academia, uma das primeiras coisas que se escuta é que aquilo que não for referenciado não serve, não existe. Quer dizer que a partir daquele momento, tudo o que você decidir falar ou escrever precisa ser de outra alguém e essa alguém precisa ser citada. Logo, a sua autencidade e originalidades se tornam irrelevantes, quando não, apagadas. Ao passo que, para que haja manutenção da sua existência acadêmica, você enquanto estudante, especialmente se estiver no mestrado ou doutorado, necessita fundamentar a sua ânsia no ineditismo. Ou seja, necessita trazer algo novo para a academia, constantemente. 

Talvez esteja se perguntando, o que de você, qual legado, acaba deixando se tudo precisa vir de outra pessoa. Também já me fiz essa pergunta, várias vezes. Não nego nem acho injusto que os créditos das criações sejam dados a quem as criou. Contudo, me questiono se, de certa maneira, esse discurso não acaba minando a força criativa das pessoas. Aqui vale pontuar que há, entre academia e redes sociais, uma similaridade. Tomo como exemplo o Instagram. Acredito que inumeráveis sejam as contas similares em estética, conteúdo e finalidade. Ao mesmo tempo que para se manter ativa e cativante, é necessário que estes perfis sejam carregados de autenticidade, originalidade. É neste sentido que penso sobre qual o espaço que há para narrativas pessoais se tudo precisa já ter existido antes das nossas publicações, sejam elas nas redes ou nas revistas científicas. 

Conceição Evaristo cunhou o termo escrevivência (olha a referência?! rs) para abordar a relevância do registro e disseminação daquilo que só nós vivemos. Escrevemos e vivemos em simultaneidade. Escrevemos no livro da vida, em papéis A4 ou em postagens aquilo que foi ação, de importância pessoal, mas que também pode servir de referência para outras de nós. Contudo é significativo frisar que esse "adestramento" em referenciar nossas próprias vivências acaba por construir barreiras de insegurança quanto a escrita daquilo que possuímos. Quero dizer com isso que de tanto referenciar, trazer autores para justificar aquilo que vivenciamos, acabamos por não nos sentirmos seguras suficientes para relatar nossas próprias experiências. Isto porque a referência funciona como uma espécie de validação daquilo que vivemos, da opinião que tivemos ou daquilo que sugerimos como sendo digno de abordagem. Talvez por isso se torne tão imperioso e corajoso expor os nossos pensamentos e opiniões*. Porque apenas povoando a nossa mente, eles acabam protegidos de críticas e do "vexame"da refutação, mas também da possibilidade de crescimento, aprofundamento e reformulação.

As referências são importantes, mas não são tudo. As vozes que ecoam no nosso interior nos incentivando a compartilhar aquilo que sentirmos ser urgente, necessitam ser ouvidas e seguidas. Expor aquilo que pensamos assumindo a autoria por estes pensamentos também é ação empoderadora e incentivadora de outras vozes. Estejam elas dentro ou fora da academia, repercutindo ou não nas redes. Há sempre novidade em viver a própria vida, em ser pessoas. Ninguém vive a vida de outréms em plenitude.

*Só por desencargo de consciência, sinalizo que expressões racistas, machistas ou, de qualquer sorte, discriminatórias e que incentivem o ódio não funcionam como opinião. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Textos feministas para download

Meia idade

A disciplina supera a ausência de inspiração?