Dororidade não é amizade

Dentro do glossário feminista, uma das palavras que mais é utilizada é o termo sororidade. Basicamente diz respeito a solidariedade entre mulheres. Uma palavra originada dentro da perspectiva do feminismo branco. Vilma Piedade, escritora brasileira, cunhou o termo dororidade para se referir à dor que atravessa todo corpo feminino negro unicamente fruto do racismo. Neste sentido, se compararmos a sororidade à dororidade, embora termos diferentes, sua diferença estaria no fato de que neste último a categoria raça seria responsável por aproximar as mulheres negras do sentido da solidariedade, visto que a estas mulheres violências específicas são imputadas, o que não ocorre com mulheres brancas. 

Aqui quero deixar escuro que não é porque mulheres negras sofrem violações específicas que, necessariamente, precisam ser caracterizadas como amigas. Eu, enquanto mulher negra, posso me solidarizar com uma dor que outra mulher negra sofreu (ex: receber um salário inferior apenas por ser negra) e nem por isso possuir afinidade com esta de tal sorte que a deseje no meu círculo de pessoas intimas. Posso chorar a dor de ter um parente preso injustamente, receber a ajuda de outra mulher negra, e não ser por ela encarada como amiga. 

Mulheres negras não precisam ser amigas apenas por serem negras. Essa falsa obrigatoriedade muitas vezes alimenta uma rivalidade que já nos foi carimbadas a muito tempo. Nos impede de reconhecer os feitos de outras mulheres negras (achando que isso nos inferiorizará) e até mesmo de estabelecer um diálogo respeitoso. A negritude nos aproxima, por vezes nos une, mas ela não é suficiente para selar uma amizade. Para isso, outros fatores individuais são considerados e devem ser respeitados por quem de fora insiste numa relação de amizade compulsória baseada na raça.

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