A teimosia do calar

 Há épocas na nossa vida em que o silêncio é religião. A gente cultiva, ama, adora e venera. Parece que não faz sentido fazer qualquer movimento fora daquilo que é a nossa crença. Tem vezes em que abrir os olhos para outra realidade com tolerância é quase uma violência a nós mesmas. Nos acomodamos ou acostumamos a viver assim, quase que sem desafio algum. Porque há conforto. No entanto, esse cenário também traz um pouco de utopia. É verdade que não há som que exista sem o silêncio, mas até para que haja som é preciso romper o silêncio.

A escrita é um pouco isso. Assim como a fala também o é. Mais ainda a nossa insistência em calar quando é preciso falar tal qual a nossa teimosia em nos invisibilizar persevera quando é preciso aparecer. Colocar para o mundo nossos rostos, corpos, jeitos, gostos e pensamentos nos eternizam. Não confundamos aqui a eternidade com a incapacidade de mudança também. Eu posso ser eterna e atualizada, a minha voz e pensamentos podem gerar novas falas e frutos para além da minha existência. Assim é o discurso e a escrita. Não à toa novas Marielles surgiram e continuarão a surgir do sangue derramado da vereadora, mas, sobretudo, do eterno que ela plantou e atualiza em cada discurso renascido midiaticamente. Pode até parecer uma escrita esquizofrênica, mas faz todo sentido agora.

Falemos. Escrevamos.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Textos feministas para download

Meia idade

A disciplina supera a ausência de inspiração?